Bebé: From the street to the Manchester United

Bebé: Da rua para o Manchester United

16 de Agosto de 2010, 19:57

A história de Bebé é daquelas que nos enche de coragem e faz-nos acreditar que tudo é possível. Bebé podia estar preso a um futuro sombrio, tal como muitos filhos de emigrantes nos bairros sociais em Portugal. Entrou na Casa do Gaiato com 10 anos, aprendeu a valorizar-se, foi atrás do sonho de futebolista. Acreditou em si: em três meses, saiu do modesto Estrela da Amadora da 2ª divisão para o Manchester United. Pelo meio, uma passagem pelo V. Guimarães e cinco jogos amigáveis que aguçaram o apetite de Alex Ferguson.

Tiago Manuel Dias Correia, mais conhecido por Bebé,  nasceu a 12 de Julho de 1990, em Agualva, no Cacém. Filho de pais cabo-verdianos, muito cedo foi entregue aos cuidados da avó, uma vez que a mãe não conseguia tomar conta dele. Experimentou as aventuras de “menino de rua”, encontrou o caminho para a delinquência, própria da idade e do meio onde vivia.

A Comissão de Protecção de Crianças em Risco teve de intervir. O destino: Casa do Gaiato de Santo Antão do Tojal em Loures, antes que Bebé se “perdesse”. De potencial marginal a homem feito, Bebé viu a vida dar uma volta de 180 graus. Com os holofotes da fama em si, não esquece quem o ajudou: “Ele costuma dizer que se não tivesse vindo para cá, hoje estaria preso, pois ter-se-ia metido em sarilhos”, diz-nos José João, director da Casa do Gaiato de Santo Antão do Tojal.

Nos primeiros anos, a mãe Deolinda ainda apareceu uma e outra vez para visitar o filho. O pai, esse, nunca deu a cara. Apenas a avó Ilda Romana, por quem Bebé nutre uma grande admiração, continuava a visita-lo na Instituição, perguntado sempre pelo neto.

Desprovido de laços afectivos por parte dos pais, Bebé encontrou na Casa do Gaiato uma segunda família: professores, funcionários, os outros rapazes que chegaram à Casa na mesma situação que ele, crianças em risco que precisavam de orientações.

José João sente-se orgulhoso por o ter ajudado: “Mudou muito. Aliás, agradece-nos sempre pelo que fizemos por ele. Tornou-se responsável, mais amigo, tornou-se num homem”, acrescenta.

Na Casa do Gaiato vivem cerca de 80 rapazes, muitos deles cabo-verdianos. Alguns nasceram mesmo em Cabo Verde e foram trazidos pelos pais, outros já nasceram em Portugal. Chegam essencialmente dos chamados “bairros problemáticos” da grande Lisboa, na sua maioria de Cacém, Rio de Mouro, Silveira e Loures.

Agora Bebé é ídolo na Instituição. “Os miúdos ficaram surpreendidos e muito contentes com a ida dele para Inglaterra porque é mais um irmão que sobe na vida”, conta José João que acredita que “o sucesso de Bebé pode influenciar os outros rapazes a empenharem-se mais, a seguirem os seus sonhos e a acreditarem que tudo é possível na vida”.

Bebé ingressou nos juniores do Estrela da Amadora com outro miúdo da Casa mas nem era o mais talentoso: “O Adilson, também ele cabo-verdiano, era melhor que o Bebé mas no Estrela não aguentou com a pressão e cedeu. É um rapaz muito influenciável e não conseguiu adaptar-se”, conta o Director da Casa.

José João não sabe quantos irmãos tem Bebé: “Você sabe como são os cabo-verdianos. Tem filhos aqui, outros ali, sempre de mulheres diferentes, é sempre complicado saber quantos são”. Depois de ingressar no V. Guimarães, apareceu um irmão para o visitar.

O sangue cabo-verdiano que lhe corre nas veias moldou-lhe o espírito e a forma de estar: “Quando cá andava, estava sempre a dançar música africana. Era um rapaz muito brincalhão, estava sempre bem-disposto, sempre a sorrir”.

A solidão em Manchester tem os dias contados, o jogador quer ter por perto aquelas que mais ama: “Quando tiver tudo tratado vou trazer as minhas avós e a minha namorada”.

 

“Um dia hei-de jogar na selecção nacional” 

Por Evandro Delgado 

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Bebé é a maior contratação realizada até hoje fora de um dos três grandes clubes nacionais. Em entrevista ao Sapo Desporto, revela a sua vontade de se tornar uma estrela do futebol mas confessa que tudo será feito com calma. 

Depois de Nani, agora é a vez de Bebé fazer carreira no colosso Manchester United. A barreira da língua, o clima e a vida num país e cultura diferentes não assustam o luso-cabo-verdiano que promete muito trabalho nessa aventura em terras de Sua Majestade. 

Menos de uma semana depois da contratação, Bebé fez o seu primeiro treino com a equipa principal do Manchester United. O avançado português viveu um turbilhão de experiências nos últimos meses e agora conta com as ajudas de Nani e Anderson na sua adaptação ao futebol inglês. 

A mudança para Old Trafford não tirou o sono a Bebé. O jogador tem noção das suas qualidades mas sabe que terá de trabalhar muito para conquistar o seu espaço na equipa que revelou Cristiano Ronaldo como melhor jogador do mundo. 

Em entrevista exclusiva ao Sapo Desporto, Bebé revela como têm sido os primeiros dias na cidade de Manchester. Para já, conta com ajudas preciosas dos colegas lusófonos: “O Nani e o Anderson é que me têm ajudado nestes primeiros dias. Só fiz um treino, percebo algumas coisas mas quando não percebo, são eles que traduzem”. Só para a semana é que Bebé irá começar a ter aulas de inglês. 

A prioridade nesta altura passa pela adaptação. O jogador tem trabalhado muito no ginásio e apesar de ter treinado com a equipa principal, ainda não recebeu qualquer indicação se ficará a trabalhar com o plantel principal ou se vai rodar nas reservas. “Ferguson disse-me para ter calma, para ir devagar. Ele é um treinador que aposta muito nos jovens, consegue fazer deles jogadores, por isso não tenho pressa” revela Bebé ao Sapo Desporto.  

O extremo não tem pressas de chegar ao topo, apesar da surpresa pela sua contratação: “Não estava nada a espera. Imaginava um dia ir para um clube grande mas a minha expectativa era fazer uma ou duas boas épocas no Guimarães e depois ver o que acontecia. Não esperava que fosse tão rápido. Fiquei em choque”, desabafa Bebé, que passou a ser representado por Jorge Mendes, empresário de estrelas como Cristiano Ronaldo, Di Maria, Pepe ou José Mourinho.
 
O pouco tempo que trabalhou com Manuel Machado ainda deu para levar alguns conselhos úteis: “O Mister Manuel Machado disse-me sempre para acreditar em mim. Quando renovei com o Guimarães e passei a ganhar mais, ele deu-me muitos conselhos, como não deixar que o dinheiro me influenciasse, para poupar, e disse-me para ajudar os familiares e outras pessoas que me ajudaram também. Ele deposita muita confiança em mim”. 

Apesar da mudança e de ter sido Queiroz quem aconselhou a sua contratação, o avançado luso-cabo-verdiano não espera ser chamado para a selecção principal: “Para já espero ser convocado pelo Mister Oceano para os sub-21. Um dia hei-de jogar na selecção principal de Portugal mas não tenho pressa”. 

Bebé está a viver sozinho mas em breve irá ter companhia: “Quando estiver tudo tratado, vou trazer as minhas duas avós e a minha namorada para viverem comigo”. 

O avançado ficou impressionado com a grandeza do Manchester United, “o melhor clube do Mundo” e gostaria de deixar a sua marca, como fez Cristiano Ronaldo: “Sei das minhas qualidades, daquilo que posso fazer mas não sei como será o futuro. Se trabalhar muito e bem, se continuar a progredir, sei que posso ganhar o meu lugar no clube”. 

A Casa do Gaiato, uma instituição que o acolheu desde os 10 anos, será para sempre a casa de Bebé, onde deixou muitos amigos: “Eles ajudaram-me muito, são meus amigos e quando regressar a Portugal, nas minhas folgas irei logo ter com eles, irei dormir lá”, confessou Bebé ao Sapo Desporto.