Um livro que encoraja as crianças a avaliar riscos através de 50 coisas perigosas que devem fazer está a fazer sucesso nos EUA

Colar dedos, lamber pilhas, subir árvores e conduzir um carro. Os pais deitam mãos à cabeça, mas Julie Spiegler, educadora de infância, e o marido, Gever Tulley, informático, defendem a ideia com garras e dentes. A teoria foi colocada em livro: “Fifty Dangerous Things (You Should Let Your Children Do)”. Depois de ter sido recusada por 16 editoras receosas de eventuais processos levantados por pais cujas crianças se magoassem no seguimento das propostas do livro, a obra é um sucesso nos EUA.

O casal, que decidiu avançar para a edição por encomenda, já vendeu cinco mil cópias através do site Kids’ Active Books, da Amazon. A procura continua a crescer e chovem propostas de editoras dos EUA, Reino Unido, China e Espanha. Mas a verdade é que a informação e os conselhos do livro não são “completos, seguros ou 100% correctos”, avisa Tulley, referindo ainda que “se desresponsabilizam de qualquer ferimento que possa resultar da prática das actividades propostas”.

No entanto, faz questão de tranquilizar quem já comprou (e pretende comprar) o livro: “Claro que devemos proteger as crianças, é o compromisso que temos com eles perante a sociedade, mas quando isso se transforma em sobreprotecção, falhamos enquanto sociedade, uma vez que estamos a impedir que as crianças aprendam a avaliar os riscos por elas próprias. Assim, devemos ajudá-las a perceber a diferença entre situações estranhas ou pouco familiares, por um lado, e aquilo que é realmente perigoso, por outro.”

E que melhor forma de explicar isso a uma criança do que deixá-la atirar coisas (dardos, lanças, pedras), brincar com o fogo (controlado) ou mesmo conduzir um carro? “Ao conduzirem um carro – num parque de estacionamento vazio ou num descampado, a direito e sempre sentadas ao colo de um adulto -, as crianças podem sentir o poder de controlar uma máquina gigantesca e perceber que quando um adulto vai a conduzir está realmente ocupado.” Quanto aos dedos colados com supercola, por exemplo, “podem ser uma forma de os miúdos darem mais valor à sua condição física, ao verem-se impossibilitados de concretizar as suas tarefas diárias por terem dois dedos colados.” Tulley é o fundador da Tinkering School, um campo de férias nos EUA para crianças dos oito aos 17 anos, onde “constroem coisas que imaginam, mexem em ferramentas, chegam a casa com arranhões ou cortes e ensanguentados, mas vivos e felizes com tudo o que construíram”.

O informático defende que é importante “ensinar os riscos às crianças através da experiência em primeira mão” e acrescenta que “deixá-los subir às árvores fará com que aprendam a fazê-lo em segurança, enquanto proibi-los pode levar a que o façam na mesma em condições perigosas”.

Num vídeo disponível no YouTube, Tulley partilha cinco coisas perigosas a não perder, entre as quais brincar com o fogo, desmontar equipamento electrónico e infringir a lei através de um simples download ilegal de música: “Pode ajudá-los a perceber que a lei pode ser quebrada sem querer e que é preciso estudar e interpretá-la”, defende Tulley. Vale quase tudo menos arrancar olhos.

in Jornal I

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3 thoughts on “Um livro que encoraja as crianças a avaliar riscos através de 50 coisas perigosas que devem fazer está a fazer sucesso nos EUA

  1. vi uma reportagem acerca deste livro na tv e acho ate que tem uma certa logica pois au ver a reportagem identifiquei-me como sendo uma dessas criancas pois fui criado assim ate porque sou filho de pais divorciados e a minha mae que passava os dias a trbalhar nem fazia ideia onde eu andava. enquanto a maior parte dos filhinhos das maezinhas da minha geracao (28 anos agora) andam ou andaram por maus caminhos, caminhos esses que eu conhecia mas que a minha precepcao de perigo me desviou sempre. desde andar sempre com um canivete, andar aos passaros com fisgas, pressoes de ar, visgo etc sempre fui obrigado a saber sair vitorioso. so para terminar hoje conto coisas a minha mae que ela ate poe as maus na cabeca

  2. Alguém dizia à alguns anos atrás, que viviamos numa sociedade light, em que tudo era supostamente facilitado. Não duvidamos que a melhoria das condições de segurança são mesmo necessárias em várias idades e actividades. Mas retirarmos o prazer e a utilidade da descoberta, substituindo-a pela super protecção, pode ser efectivamente contra-producente. Afinal estamos convictos de que nunca haverá sistema de segurança válido e eficaz, se não se avaliarem igualmente os riscos. Pior ainda é quando aqueles a quem se destina o sistema de segurança não o conhecem nem o vivenciam ou simulam…Cumprimentos.

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